FW: Não é Vírus! Aprenda a escolher melhor seus relacionamentos

maio 3, 2009

Não faça sexo.

Eu repito em um alerta

Antes da primeira fuga

Não te fujas;

Discuta-te à nua.

 

Minha mãe me falou esse poema sem nunca saber os versos. Se a antropologia fala em cultura genética ou o fardo em acúmulo de toda a humanidade, eu passei a carregá-los comigo sem tê-los ouvido em sua completa estrutura. É bem verdade que leite com manga não dá piriri. Sei também que tabelinha não funciona, camarão bom é nascido em cabrobó, bebida é coisa que vira cirrose e botafoguense não vai ao estádio.

Acontece, que quando você ligar pra sua irmã, desesperado de São Paulo, dizendo-lhe que não agüenta mais e que quer divórcio ou psicólogo, você provalvemente irá ouvir pulsos telefônicos a 0,90 centavos convertidos em precação dizendo-lhe “calma, converse mais com ela, tente chegar ao problema”. No que, também provavelmente, você retrucará com um manjado “você não a conhece” ou mesmo será baixo, mesquinho quando emendar um “aquela vaca branca”. Sua irmã, levemente, com um pequeno agudo semitonal no início da frase lhe dirá um “claro que não a conheço e não devo. Foi você quem selecione o verbo de sua escolha 1) casou 2) trepou 3) encontrou com ela”. É fato: não são nossos atos que nos fazem homens de pouca fé e sacrifício, mas sim o que ouvimos sobre eles.

E, talvez, você nunca tenha se questionado profundamente o que leva uma pessoa a repassar tantos emails em um dia com a siglas “FW:” ou “EN:”, já que esbarrou na hipotética preguiça encontrada pelo senso comum para explicar tal ato normalmente cometido pelos funcionários públicos de Brasília, por sua ex-namorada ou até mesmo pela sua mãe.

Não se esqueça: é a antropologia jogando em suas costas todo o conhecimento acumulado de gerações.

Ah, e repasse esse email para toda a lista de contatos. Clique aqui para ver uma gostosa ex-BBB em um vídeo que vazou na WEB!


Fobia Social

abril 21, 2009

 

Cecília disse:

-Só mais uma dose. Por que a pressa? A noite tá tão bonita…Garçom, mais uma vodka, por favor!
-Porra, Ciça, vão bora! O Breno chegou ali, não quero falar com ele…
-Mas, amor, ele é seu primo…
-Então, pronto! Ele é meu primo, a gente quase não se vê, não tem coisa nenhuma em comum… Aí, só porque meu pai resolveu ser irmão da mãe dele, a gente vai ter que se cumprimentar e ficar inventando papinhos toda vez que se esbarrar na rua? Mas que saco isso! Odeio esses ritozinhos sociais estúpidos, vazios, ridículos e…
-Iiiiiiih, começou a crise de maluquice! Não quero nem saber, eu vou tomar minha vodka. Garçom!
-Se ele vier até aqui eu vou ficar MUITO puto.
-Ai, chuchu, que exagero. Fica bonzinho, vai, prometo que você ganha uma surpresa quando a gente chegar em casa. Finalmente, minha vodka! Thank you very very much.
- Puta que o pariu, acho que ele viu a gente…Não, só me faltava essa agora, cara, sinceramente…urrrrg!
Cecília toma um longo gole da vodka com gelo.
-Hum, você está muito estressado. Por que não pede uma cervejinha, heim?
-Não posso, tô dirigindo, esqueceu? Já sei, já sei. Eu vou me esconder no banheiro. Talvez ele só tenha parado aqui pra cumprimentar algum conhecido, sei lá. Ele é tão irritantemente sociável que deve puxar assunto até com o primo do amigo do cara que ficou no mesmo berçário que ele na maternidade.
-Okay, meu namorado é doido. Faz o que você quiser, benzinho, só vê se me traz uma tequila na volta, tá? Te amo.
-Eu posso ser doido, mas você é alcoólatra.

Cecília lhe manda um beijo tocando os lábios com o indicador e volta a se entreter com a vodka.
Gabriel, já de pé, dá um suspiro de irritação e, meneando a cabeça, vira de costas em direção ao banheiro.
Apesar de um tanto ansioso, estava até se saindo bem em seu estratégico e emergencial plano de fuga. Encontrava-se já relativamente próximo ao desejado local de trégua quando lhe sobreveio o percalço aterrador: ali, a sua frente, numa distância de poucos metros, nada menos ameaçador que a figura de um “colega” de faculdade. Uma daquelas criaturas com as quais se convive por (única e exclusivamente) força das circunstâncias, que se vê numa freqüência quase diária, em proporção absolutamente indireta a qualquer contato que se exerça. Não obstante, qualquer ser racional minimamente introduzido nas leis da civilização conhece a regra de ouro: fora do contexto rotineiro, é forçoso, ao menos, uma saudação educada e, se possível, o estabelecimento de pequena conversa acerca de qualquer assunto aleatório e enfadonho, com risinhos e fingimento de satisfação e interesse. A parte mais difícil de todo este intrincado mecanismo, sabe-se, é a de pôr fim ao momento agonizante. Normalmente, a aspirada oportunidade se dá quando o “assunto” acaba. É comum que um dos interlocutores lance mão do clássico “Então, eu tenho que ir porque…”, e aí, cria-se uma desculpa qualquer que, geralmente, a outra parte sequer escuta do que se trate e apenas concorda prontamente em que a presença dispensável e aborrecedora se vá.
O fato é que, só de pensar em qualquer destes procedimentos, Gabriel era tomado por uma consternação tal que lhe causava arrepios e ânsia de vômito. Executá-los, portanto, era absolutamente inviável.
Mas não importa o quão ruim uma situação esteja, ela sempre pode ficar pior: o “colega” da faculdade (ou do estágio, do escritório, da academia, do inglês, das aulas de arco e flecha, seja lá quem for o chato ou o indiferente que você tenha que aturar em sua vida cotidiana), que, até aquele momento, estava apenas sendo observado, de repente, pode virar o rosto e (momento fatal) ver você. E o que é pior: te reconhecer. Gabriel, atento aos movimentos do outro, ao perceber uma mínima intenção deste em girar a cabeça bem em sua direção, ficou completamente perturbado. Pupilas dilatadas, suor, respiração ofegante e primeiro instinto natural: correr para a esquerda (por que esquerda? Ora, eu sei lá!)
Acredite-se: até aí, estava tudo bem. A fatidicidade reside em que, à esquerda, havia uma mesa onde estavam devidamente acomodadas cinco pessoas, das quais três eram homens (grandes e fortes, diga-se de passagem). E Gabriel, desatinado como estava naquele momento, não percebeu este minucioso detalhe, de maneira que esbarrou bruscamente no mencionado lugar. Frise-se que não foi uma esbarrada qualquer, e sim, diria-se, de natureza catastrófica, homérica, de causar inveja aos bêbados e desajeitados mais instituídos.
Neste instante, quem estava no local pôde apreciar a cena dantesca: uma terrível mixórdia de copos, torresmos, gelos, cervejas, gins, vodkas, energéticos, batatas fritas, mais cervejas, mesa e cadeiras derrubadas, namorada do mais parrudo no chão…

-Nem trouxe minha tequila, né, seu sacana? Que isso, Gabriel? solta meu braço, você tá louco?!
-Não faz pergunta, Ciça, vamo sair daqui agora!
-Mas eu nem terminei minha vod…
-ANDA!
-Ô, seu filho da puta, aonde você pensa que vai?! Cê ainda vai dormir muito hoje, de tanta porrada que vai levar, seu desgraçado!
Desesperadamente, conseguem entrar no carro e, numa aceleração vertiginosa, deixam o bar. Ao chegarem em frente ao prédio, Gabriel ainda está assustadoramente pálido, mas os batimentos cardíacos, aos poucos, vão retornando ao normal.

-Amor, você vai ter que me explicar direitinho que confusão maluca foi essa que você arrumou. Meu neném virou brigueiro de bar agora, foi? Heim, tiucutiucu, hãm?
-Me deixa, Ciça, me deixa…

Atravessavam a rua e já estavam prestes a alcançar o portão, quando escutam alguém dizer:

-Gabriel?! Não acredito! Esse é das antigas! Quanto tempo, cara!

Gabriel, lentamente, vira o rosto na suposta direção da voz, acreditando tratar-se de um delírio. Mas não era o caso. Na verdade, era Marcos, um colega da época de ginásio que não via há uns 6 ou 7 anos.
Um gesto de proteção com as mãos, pernas cambaleantes e um semblante inexprimivelmente assustado foi tudo o que se pôde observar em Gabriel antes de ele, simplesmente, sair correndo insana e desgovernadamente pela rua, afastando-se com rapidez da namorada e do amigo dos tempos de escola.

Cecília dá um suspiro de leve insatisfação. Olha ao relógio: duas e meia da manhã. Abre a bolsa, pega um isqueiro e um cigarro. Acende.

-Então…Vocês nasceram na mesma maternidade?

 


Escova com capinha

abril 20, 2009

Existe um momento na vida em que você se pergunta:

-Geléia de damasco ou de morango?

Pior. Existe o momento em que você depara com um amontoado confuso e perturbardor de escovas de dentes, de todas as formas, tamanhos, cores, funções e denominações que a imaginação humana, num lapso de insanidade qualquer, possa produzir. Era neste momento em que se encontrava Bruno. Não bastasse toda a angústia da dúvida anterior na prateleira das geléias, além do doloroso processo de se decidir quanto ao seu tipo de desodorante favorito em menos de dois minutos e quarenta e sete segundos, frente à quantidade infinita de misturas químicas prometedoras de impedir o cecê em qualquer circunstância, lá estava ele novamente: aturdido, desolado, a encarar todas aquelas embalagens de plástico reluzente que, juntas, eram algo monstruoso e intimidador.
Os batimentos cardíacos aceleravam, a respiração tornava-se ofegante, o suor escorria sobre a face, tinha medo, tinha sede, tinha vontade de fazer o número dois, tinha uma consulta às treze e trinta. Oh, meu deus! A consulta às treze e trinta! Se antes lhe parecia difícil chegar a tempo, agora tinha a convicção de ser, simplesmente, impossível.
Entretanto, não havia escolha. Era algo que tinha de fazer. Que espécie de homem não sabe qual escova de dentes lhe agrada? Homens irrespeitáveis, certamente. Homens que, aos trinta e cinco, ainda moram com a mãe, gargarejam, dormem de meias, não ficam perdidamente bêbados, nem pisam nas divisórias da calçada. Mas este não é Bruno, não pode ser. Pelo menos, de uma coisa ele tinha certeza: queria uma escova de dentes com capinha. Depois de ter visto no Discovery a quantidade inconcebível de coliformes fecais que, divertidamente, surfam no ar cada vez que damos uma inocente descarga, passou a usar apenas escovas de dentes com capinha.
O tempo urge, seu corpo treme, desesperado, olha o relógio: seis minutos para a consulta. Sem outra alternativa, atira-se sobre a escova (com capinha) mais próxima e se dirige inexorável ao caixa. Por sorte, encontra um sem fila.

-Porra, mas esse veado é lerdo! – Pensa.

De fato, o caixa era veado, coisa que ele percebeu pelo excesso de gel no cabelo cuidadosamente arrepiado, associado ao jeito de ele dizer:

-São dezesseis e cinqüenta. Visa ou Mastercard? Crédito ou débito?

-Crédito, crédito…Dá pra parcelar? Ah, é claro que não, esquece…

Aflito, chega ao consultório. A atendente levanta as sobrancelhas ao vê-lo (estava na cara que ele havia acabado de empurrar uma criancinha ao sair do elevador. Mesmo assim, tentou disfarçar. Cínico…)

-Boa tarde, senhor Bruno! O Dr. Rui já está esperando o senhor, pode entrar se qui…

-Tá! – Disse, ainda ofegante, apressando-se em direção à porta.

Não quis perder tempo com pseudopapinhos introdutórios, só cumprimentou e foi direto pro divã. Mal esperou o Dr. Rui sentar-se perto com a caneta e o caderninho, como de praxe, e já começou:

-Sabe, doutor, esse negócio de escova de dente…


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.